Pular para o conteúdo principal

Quando a Teologia Toma o Lugar do Pastor

Qual o dever que um pastor teólogo tem que exercer em sua igreja local? O cumprimento desse dever se resume em produções de artigos e pregações? Ou ele não deve se preocupar com a teologia, mas somente em cuidar do rebanho?

Todas essas perguntas são fáceis de responder. Qualquer um diria que o pastor tem que cumprir o dever de apascentar, ter todo cuidado com os membros de sua igreja, fazendo constantes visitas, estar disponível a qualquer hora, e também ser um mestre que produza teologia, alimento para o rebanho. Não obstante, na prática alguns são levados a se dedicar muito mais em produzir teologia do que cuidar de vidas, acreditando ser essa a sua obrigação. Para eles, a pregação do evangelho, por si só, é o suficiente, e realmente é, porém, uma pregação pastoral não deve está desvinculada do cuidado pastoral.

O puritano, Richard Baxter, falando sobre o caráter do pastor, diz:

"O interesse próprio é uma escolha infeliz e contraproducente. Assim, a abnegação, a autonegação, é absolutamente necessária a todo cristão. [...]
    Árduos estudos, muito conhecimento e pregações excelentes são mais gloriosos, mas também são pecados de hipocresia quando feitos para a nossa própria glória".

Citando Bernardo de Claraval, Baxter conclui seu argumento acima, dizendo: "HÁ OS QUE DESEJAM ADQUIRIR CONHECIMENTO PELO VALOR DO CONHECIMENTO - E ISSO É VAIDADE DE BAIXO NÍVEL" (grifo nosso)[1].

De acordo com Baxter, o pastor não deve ter interesses próprios em aplicar seus vastos conhecimentos, antes, deve-se despir de toda autopromoção e vanglória. Não deve se dedicar somente aos estudos ou a uma inexorável busca por conhecimento, mas PRINCIPALMENTE cuidar de TODO rebanho.

Em sua declaração sobre a instrução nas FAMÍLIAS, Ele diz: "Passamos as segundas-feiras e terças-feiras, desde cedo de manhã até quase ao anoitecer, envolvendo umas 15 ou 16 famílias, toda semana, nesta obra de catequese. Com 2 assistentes, percorremos completamente a congregação, que tem cerca de 800 famílias, e ensinando cada família durante o ano" [2].

Pastorear é muito mais do que expor excelentes sermãos e discorrer minuciosamente sobre as doutrinas da graça, mas é CUIDAR, APASCENTAR, TER CONSTANTE COMUNHÃO E DISCIPLINAR COM AMOR, quando for preciso.

As Escrituras também adverte sobre os pastores que se preocupam consigo mesmo (Ez 34.2).

João Calvino, o maior teólogo da Reforma, foi também o mais ilustre pastor. "Calvino merece reconhecimento por sua obra teológica e exegética. Contudo, ele se via, antes de tudo, como um pastor; e todos os seus esforços serviam às necessidades de seu ministério pastoral" [3].

Infelizmente o que temos hoje são pastores que estão mais preocupados com sua promoção pública do que com vidas. Esses negam ao maior de todos os mandamentos, que é o amor; tais não podem ser chamados de pastor, pois essa palavra implica uma responsabilidade com o próximo, interpessoal, e não pessoal.
Ser pastor é ser teólogo, é a união da ortodoxia com a ortopraxia. Pastor não é aquele que é, mas aquele que faz, que exerce sua vocação, se preocupando em dar um alimento sadio e também amor.

- Thiago Ribeiro

[1] BAXTER, Richard. O pastor Aprovado. São Paulo: PES - Publicações Evangélicas Selecionadas, 2013, pp.41-42.

[2] Ibid, p.21

[3] CALVINO, João. Amor à Devoção, Doutrina e Gloria de Deus. São José dos Campos, SP: Fiel,  2010, p.107.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Divorcio Bíblico - Por Esli Soares

Crente pode se divorciar? Como a Bíblia trata a questão do casamento,  divórcio e novo casamento? Será que um cristão autêntico pode, depois de um divórcio, se casar novamente? A Bíblia permite um novo casamento para quem se separou?  Esse artigo surge da necessidade de explicar minha posição, e responder de modo definitivo o que creio ser a prescrição bíblica sobre o tema. Obviamente não tratarei de todos argumentos e detalhes propostos pelas partes. E nem vou abordar exatamente aquilo que já foi exposto por outros. Apenas esboçarei a minha posição no assunto, i.e. como eu resolvo essa questão, como respondo essas perguntas; apresentarei a ‘minha’ síntese defendida. No fim citarei uma pequena lista de artigos que ao meu ver tratam do assunto de forma certo e útil, corroborando e ampliando o que defenderei aqui. Bem acertadamente John Murray disse “sobre esta questão, a igreja está, na prática, fortemente dividida”. Por um lado, vemos uma linha histórico-confessional ...

SE DEUS DECRETOU TUDO, ENTÃO POR QUE EU DEVO ORAR? - A decadência espiritual dos neo-reformados.

"Deus não nos propõe  coisa alguma a esperar dele, sem que, por sua vez, nos mande que as peçamos por meio da oração."[1] - João Calvino O grande reformador de Genebra, João Calvino, era um homem que não abria mão da oração. Nas palavras de Joel Beeke: "Calvino focalizou mais a prática do que a doutrina da oração. [...] Para ele, a oração era a essência da vida cristã"[2]. Calvino não só  nos deixou um legado teológico, bem como um legado prático. Infelizmente hoje o termo "calvinistas" ou "reformados" é sinônimo de frieza espiritual, de pessoas que não oram; isso porque ao conhecerem as doutrinas da graça[3] passaram a dedicar mais tempo nos estudos teológicos deixando de lado a prática da oração. Muitos que hoje são adeptos a teologia reformada vieram de igrejas pentecostais e neopentecostais, que enfatizavam mais  a oração do que os estudos teológicos. Após conhecerem a doutrina reformada alguns deles acabam por cair em outro extremo, q...