"Deus não nos propõe coisa alguma a esperar dele, sem que, por sua vez, nos mande que as peçamos por meio da oração."[1]
- João Calvino
O grande reformador de Genebra, João Calvino, era um homem que não abria mão da oração. Nas palavras de Joel Beeke: "Calvino focalizou mais a prática do que a doutrina da oração. [...] Para ele, a oração era a essência da vida cristã"[2]. Calvino não só nos deixou um legado teológico, bem como um legado prático.
Infelizmente hoje o termo "calvinistas" ou "reformados" é sinônimo de frieza espiritual, de pessoas que não oram; isso porque ao conhecerem as doutrinas da graça[3] passaram a dedicar mais tempo nos estudos teológicos deixando de lado a prática da oração. Muitos que hoje são adeptos a teologia reformada vieram de igrejas pentecostais e neopentecostais, que enfatizavam mais a oração do que os estudos teológicos. Após conhecerem a doutrina reformada alguns deles acabam por cair em outro extremo, que é a negligência da oração.
Não obstante, o presente artigo não tem como propósito focar nesse grupo de recém convertidos ao calvinismo, mas daqueles que são levados há um extremo ainda mais perigoso; esses maximizam a soberania de Deus e tiram todo valor da responsabilidade humana.
A teologia reformada tem como pilar principal a soberania de Deus em todos os eventos que acontecem no mundo, o que inclui eventualidades na vida de cada indivíduo. Sendo assim, negamos todo conceito deísta que afirma que Deus deixou a criação a mercê das leis naturais. Assim como a ideia ensinada pelos pentencostais, neopentecostais e por alguns arminianos, de um Deus impotente que permite ao homem decidir seu destino. Em detrimento a isto, afirmamos categoricamente que o livre arbítrio do homem está morto e que suas decisões são tomadas por circunstâncias causais que foram ordenadas por Deus, de modo que Deus não seja autor do pecado e nem violada é a vontade humana. Esse entendimento da soberania de Deus acaba levando alguns neoreformados a abandonar a oração, pois para eles Deus decretou todas as coisas e não faz sentindo orar. O conceito deles de oração é equivocado, pois entendem que a oração é uma tentativa de mudar as decisões de Deus, pois sendo Deus soberano é impossível alterar seus decretos. Contudo, a oração não é uma tentativa de querer mudar as decisões de Deus, ela é uma mortificação da nossa carne para mudar a nós mesmos.
No entanto, o caminho que muitos deles tem percorrido estão bem distantes daquele pelo qual Lutero, Calvino, Jean-Marc, Spurgeon, Edwards, Lloyd-jones, os Puritanos e outros gigantes da fé reformada percorreram. Estes homens nunca divorciaram a oração da soberania de Deus.
A oração é o meio pelo qual Deus aje em nós e através de nós.
O puritano inglês Matthew Henry escreveu em seu diário: "Adoro orar. É isso que afivela toda a armadura do cristão." [4] O capítulo mais longo nas institutas é dedicado à oração, que Calvino chamou de "o principal exercício da fé, mediante a qual recebemos diariamente os benefícios de Deus." [5] O reformador genebrino também levantou a objeção devido suas próprias pressuposições teológicas: Se Deus é soberano e sabe de todas as coisas do princípio ao fim por que orar? Para aqueles que assim procedem, Calvino dizia: "Aqueles que, porém, assim raciocinam, não atentam para que fim o Senhor instruiu os seus a orar, POIS NÃO ORDENOU ISSO PROPRIAMENTE POR SUA PRÓPRIA CAUSA, MAS, ANTES, PELA NOSSA."[6]
Jônatas Edwards, conhecido pelo famoso sermão "pecadores nas mãos de um Deus irado" e considerado um dos maiores expoentes do calvinismo do século XVIII, passava treze horas, diariamente, estudando e ORANDO[7]. Orlando Boyer diz que Edwards "não abandonara nem deixara de gozar os privilégios das orações, costume que vinha desde a meninice."[8] Martyn Lloyd-jones diz que devemos orar para que o conhecimento não fique somente em nossa mente.[9] Lloyd-jones também levanta a mesma objeção que Calvino levantou, que alguns são tentados a dizer: "Deus é Todo-poderoso, não há nada que Ele não possa fazer; por que, pois, há necessidade de oração? A resposta é que Deus, em Sua sabedoria eterna, escolheu operar deste modo. Ele faz divisão do trabalho e, de um modo ou de outro, usa as nossas orações e leva os Seus grandes propósitos à execução mediante a instrumentalidade da intercessão dos santos".[10]
Além dos exemplos desses santos homens que defenderam a soberania de Deus e não abandonaram a vida de oração, temos na Bíblia o maior exemplo de soberania de Deus e oração. O apóstolo Paulo nos primeiros versículos de Efésios capítulo 1 nos apresenta a ação soberana do Deus-Trino na salvação, ele diz que Deus-Pai planejou a salvação, isto é, elegendo e predestinado um grupo de indivíduos antes da fundação do mundo (vs. 3-5); O Filho realizou essa salvação por meio do Seu sacrifício vicário (vs 7-12) e o Espírito Santo aplicou a salvação nos eleitos (v. 13). Após essa belíssima canção em exaltação a soberania do Deus-Trino na salvação, Paulo cai de joelhos em oração e pede que o Espírito Santo ilumine os cristãos a fim que eles conheçam a incomparável grandeza de Deus. Em 2 Tessalonicenses 3. 1-2 Paulo pede que os cristãos de Tessalônica orem para que não houvesse impedimento no progresso do Evangelho e para que Deus concedesse livramento a ele dos homens maus.
O apóstolo dos gentios não tinha dúvida de que a sua agenda estava nas mãos de Deus, de que a Sua soberania estava guiando toda a história, porém Paulo não abriu mão da oração. Quanto maior era a sua convicção da soberania de Deus, mais intensa era a crença de que Deus age através da oração.
Portanto, aqueles que negam a eficácia da oração e atribuem isto a soberania de Deus como desculpas ou com argumentos falaciosos, estão seguindo por um caminho de uma falsa religião - se quer devem ser considerados como cristãos - A nossa ortodoxia reformada não pode estar alienada da vida diária de oração. Como poderemos ter comunhão com quem se quer dirigimos a palavra? Um cristão que diz ter comunhão com Deus e deixou de orar não passa de um mentiroso. Apesar de crermos que Deus já decretou todas as coisas que irão acontecer, antes mesmo da fundação do mundo, oramos porque Ele ordenou que orassémos. A oração na vida do cristão não deve ser vista como um sacrifício, mas como um privilégio e um meio de graça. O Deus-Trino poderia operar todas as coisas sem o auxílio de qualquer criatura, mas permitiu de forma graciosa que indivíduos colaborassem em sua missão. Deus decretou todas as coisas e a oração não está fora desse decreto.
Nas belas palavras do apóstolo Paulo: "Orai sem cessar"(1 Ts 5.17).
- Thiago Ribeiro
[1] As institutas, III, 20.2.
[2] ADAMS, Jay; et al. JOÃO CALVINO AMOR À DEVOÇÃO, DOUTRINA E GLÓRIA DE DEUS. São José dos Campos, SP: Fiel, 2010, p. 253.
[3] Os cinco pontos do calvinismo é também conhecido como "as doutrinas da graça", isso pelo fato de dar ênfase na miséria humana e na incapacidade do homem de salvar-se, atribuíndo Deus a total soberania em salvar um grupo incontável de indivíduos.
[4] BEEKE, Joel; JONES, Mark. TEOLOGIA PURITANA. São Paulo: Vida Nova, 2016, p.1243.
[5] GEORGE, Timothy. TEOLOGIA DOS REFORMADORES. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 227.
[6] As institutas, III, 20.3.
[7] BOYER, Orlando. HERÓIS DA FÉ. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 45.
[8 Ibid, p.44.
[9] LLOYD-JONES, Martyn. AS INSONDÁVEIS RIQUEZAS DE CRISTO. São Paulo: PES, 1992, p.98.
[10] Ibid, p.99.

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